O que posso dizer de Atro Coração? E de suas personagens?
Vou começar falando sobre mim e minha relação com esta peça.
Eu comecei a ensaiá-la em 1992, acho, mas em meados de 1993 eu e meu colega de atuação, no caso, autor e diretor da peça, tivemos, cada qual, mudanças em nossas vidas que requereram nosso tempo integral para ajustes e conseqüentemente deu-se o fim dos ensaios. Nunca mais pude voltar a atuar. A faculdade bem sucedida, prometendo uma boa profissão, os estágios profissionalizantes, o primeiro emprego, o primeiro filho, o primeiro ninho, tudo colocou o teatro no status de coisa de juventude. Nunca mais vi Marcio até que um dia quando o Orkut já tinha cansado a beleza de muitos internautas, nos encontramos através de amigos. Falamos sobre a peça. Ele tinha perdido o texto. Eu tinha a primeira cópia. Entreguei-a a ele com a condição de que se ele um dia a remontasse eu faria parte dela. O trato foi selado, embora eu tivesse feito na verdade uma brincadeira irônica e não um acordo. Mas eis que um dia Marcio me liga, dizendo que tinha reescrito a peça e que sua parte no trato estava cumprida: podíamos começar a ensaiar. Curioso é que eu que até alguns meses não tinha tempo pra nada, agora tinha tempo de sobra: home-work. Começamos a ensaiar e a “viajar” em todos os sentidos e significados, quase dezoito anos depois da primeira montagem. Eu diria que a peça é toda ela cheia de símbolos e alguns, nós mesmos vamos decifrando aos poucos. Por exemplo: as cores dos figurinos. Branco, preto, vermelho, e um pouco de jeans. E aí está: o bem, o mal, o amor, são facilmente identificáveis, mas o indigus brim... É aquilo que resiste ao tempo e às situações mais difíceis, o que é atemporal - e mais do que isto o que não diferencia classe social, credo, ou etnia, nem carrega preconceitos, o jeans é apolítico, afilosófico, acultural. Voltando à Terra... Só sei que quando faltava apenas a limpeza dos gestos, o aprimoramento das coreografias, algumas filmagens externas, eis que nossas vidas, a minha e de Márcio foram arrebatadas com mudanças que chacoalharam nossas vidas de tal forma que levaria, como de fato levou, muito tempo para nos recuperarmos. Foi quase um ano de recesso. Insistimos. Voltamos. E alguns meses depois eu adoeci, logo após interpretar uma cena de Lilith na pinacoteca. Mais de um mês da minha vida foi dedicada à cama e à tosse... Curioso que a personagem passa por isto, mil vezes pior, mas eu me senti em laboratório (que no teatro quer dizer passar por experiências que aflorem sensações que levem a entender/perceber os sentimentos e atitudes da personagem).
Neste tempo acamada pensei se tudo isto que relatei até agora não tinha uma explicação mística - já que a peça fala do mítico/religioso.
Afinal a peça coloca frente a frente o anjo que provavelmente é o mais conhecido entre os fiéis, por ser o mais atuante nas passagens bíblicas e a mulher banida por Deus, propositadamente esquecida por todos, com apenas uma coisa em comum: o amor romântico.
Então Deus e o Diabo estão na pele de Capuleto e Montéquio, mas não impedem a aproximação do casal, forçam-na no campo fértil para as experimentações: a Terra, provavelmente cada qual apostando suas fichas no resultado final deste amor: a transformação, a destruição.
Estaria presente aqui o xivaísmo, onde a destruição serve ao campo da construção de algo novo. Lógico que só a renovação seria possível, principalmente a Gabriel, que saindo ou ficando neste estado de amor, provavelmente nunca mais teria sua condição bíblica de outrora.
Na estória da peça Lilith apenas experimenta o que detesta: a submissão, e embora já a tenha experimentado, desta vez não possui a condição de fugir desta situação, vai ter que vivê-la até o fim.
Lilith com certeza está revoltada com tudo isto, mas ainda se lisonjeia por ser admirada/amada como poucas e sua essência não fora afetada a tal forma que não haja regresso, ela provavelmente voltaria a seu estado de antes, se quisesse, quando saísse de sua condição humana. Talvez apenas teria aprendido a lição de Che Guevara: teria mais ternura.
É. Talvez os mitos não tenham gostado da situação em que a peça os coloca e talvez briguem conosco tentando nos fazer não encená-la...
Mas voltamos a ensaiar. E a data de estréia está marcada.
A diferença agora é que entendemos muito melhor a estória por de trás da estória a tal forma que chega a ser um crime não dividir o que aprendemos com o público. Por isto eu escrevo.
Estava presente até aqui a Roda de Sansara, que eu entendo como um ciclo vicioso no qual as pessoas por suas essências tendem a girar, ou provocam reações por suas ações que fazem girar a tal roda, sempre de forma semelhante, em intensidade, sentido e resultado.
Nós os atores ensaiamos a peça e quando ela fica quase pronta, algo nos suga e aceitamos a adversidade como atriz principal no palco de nossas vidas e a peça fica como elenco de apoio.
Basta! Agora pedimos licença aos mitos, mas vamos representá-la. Só assim quebraremos este ciclo vicioso em que nos envolvemos, eu e Marcio, ao decidirmos interpretar Gabrile e Lilith apaixonados.
E não há nada de errado em amar, ou encenar uma estória, ainda que herege (certamente é assim que alguns dirão). O que importa é o que se faz com isto. Se o amor, por mais impuro que pareça aos olhos dos outros, servir à evolução pessoal ou até social, haverá redenção. Se uma estória fantasiosa servir a apontar nossos defeitos e qualidades reais e colocar nossas atitudes viciadas em xeque-mate e assim darmos por encerrada esta fase da vida, para começar outra nova, sem o mesmo hábito, haverá transformação.
Mas por que Gabriel? Por que Lilith? Por que mexer com eles?
O amor romântico, eu acho, sempre tende a ser mais insuportável para quem tinha a vida equilibrada e feliz. Porque ele vem feito ciclone varrendo as certezas, jogando todas as conquistas, colocando como local suportável o centro: o fator central: o próprio amor. Como mostrar isto senão fazendo sentir amor romântico, um ser inocente/ puro? Em paz no seu mundinho... Mostrar como este tipo de amor pode abalar o mais firme dos pilares. E como a condição de bondade em nós, não deveria estar ligada à concepção que temos de nós mesmos e nem à noção do que é certo ou errado, pois se estas idéias sofrerem oposição, enfrentarem adversidades, então decidiremos agir sem altruísmo.
É mais ou menos como um fiel que ao ler ou ver a peça nos programe o inferno como fim de nossos dias. Onde está sua bondade agora? Não pode simplesmente ser bom e desejar-nos o céu, só porque suas bases religiosas saíram de órbita na estória contada?
É, como dizem, é fácil ser bom, quando está tudo bem, o difícil é manter-se bom na adversidade. Eis aí o primeiro teste. Fiel, mantenha-se desejando o bem até mesmo a nós pobres mortais que não sabemos o que fazemos... (mas estamos tentando...).
Lilith com certeza foi escolhida a dedo para estrelar a peça. Primeiro porque ao que dizem, o Concílio de Tentro (que ficou famoso no Filme O Código Da Vinci) varreu-a da Bíblia como forma de acabar com a sua força. Oras se se julga e condena um criminoso, ele está lá na estória lembrando o crime e sua punição. Se você dá cabo do criminoso sem alarde, seria como se ele nunca tivesse existido, tampouco seu crime. A maior das punições é ser ignorado /esquecido.
Então os seres humanos do clero acharam que a parte escura da lua era muito pouco para o que Lilith merece. Ela merece não existir, jamais.
O mais curioso é seu crime original: Feita do mesmo barro que Adão, queria a igualdade, inclusive sexual. Chega a ser engraçado um Livro Sagrado se preocupar com a posição sexual dos amantes, mas a briga entre o primeiro casal do mundo foi porque ela queria ficar por cima de vez em quando e Adão achava aquilo humilhante...
Em outras palavras ela queria gozar à maneira dela, conduzindo a relação sexual e ele deveria achar que isto era uma crítica “Amorzinho, eu gosto assim e não como você faz.”.
Os religiosos que ainda contam sua estória fazem-na parecer vingativa. Ela foi “dar mais que xuxu-na-serra” abandonando Adão. Transou com tantos quanto pode, aperfeiçoou-se e tornou-se não só a primeira mulher, como também primeira mulher fatal!
Ou talvez ela só foi tentar gozar, já que Adão não a satisfazia. Mas uma mulher querer sentir prazer é um perigo, sempre foi visto assim, em quase todas as religiões. Pelo simples fato que a sensualidade e a perfeição sexual, somadas, é o domínio sem armas e sem força bruta, mas é forte exatamente como o amor romântico. È o ciclone jogando suas certezas e colocando o objeto de sua adoração no centro calmo, onde o céu é limpo, no momento seguinte a isto, você já pode chamar de amor romântico, dá no mesmo.
Como punição por ser tão ousada Deus a castiga, varrendo-a para debaixo do tapete lunar, pro lado de baixo, que ninguém vê.
Aí sim, vingativa por falta de compreensão, passa a seduzir homens nos sonhos entre outras tantas maldades que lhe atribuem, pois a mulher que não quer ser sub-julgada ao homem merece receber os créditos pelos feitos e por aqueles maus-feitos que ninguém sabe quem foi, mas bem que podia ser ela... Não estou aqui para defender Lilith não. Eu sei bem qual a força de uma mulher na vingança, ela é capaz de se destruir desde que leve consigo seu alvo e se sentirá feliz mesmo sucumbindo por isto. E faria tudo de novo, sorrindo...
Mas bem se sabe que a religião para dominar a mulher deixou um rol bem fechado de atitudes permitidas a ela, e qualquer coisa fora ao permitido: era punível com rigor. Certa vez eu li que a inquisição matou milhões a mais do que o nazismo... Dá para imaginar tamanha perversão? E que a igreja veio a público pedir perdão. De minha parte, só me vem à mente é um trecho da música de Gilberto Gil “Não há o que se perdoar, Por isso mesmo é que há de haver mais compaixão”.
Então a peça é assim, através do amor, mistura tudo. Espalha as qualidades e defeitos das personagens e os distribui de maneira, lógica, ou seja, pela probabilidade do que aconteceria à pessoa, se exposta àqueles acontecimentos.
Gabriel está apaixonado, mas também revoltado - perdeu sua condição de anjo e certamente não voltará a tê-la. Provavelmente valeria à pena, se vivesse em plenitude seu amor romântico. Lilith está sob domínio de um homem e deve obedecê-lo, pois como mulher não tem testosterona para forçar uma mudança através da luta, nem palavras que a façam voar. Está na sua forma mais desconfortável: a da submissão, onde a ternura e a compreensão que ela nunca teve é a chance para a reviravolta.
Só que como qualquer humano, eles não sabem de sua vida passada. E a vida que tiveram na Terra até se encontrarem foi a que realizaram através de seus sentimentos e atos. E o amor que sentem embora esteja ali neles, é vivido de outra forma, não são mais dois mitos recém apaixonados se escondendo dos Capuletos e Montéquios. São dois apaixonados errando e aprendendo o que fazer com o amor que sentem.
A peça repete cenas, falas e atos, como na Roda de Sansara. É uma clara referência ao fato de que sempre vamos encontrar parceiros de atitudes iguais aos anteriores e viveremos fatos repetitivos enquanto agirmos da mesma forma que os provoque.
No caso de Lilith e Gabriel, a peça é uma das enumeras encarnações deles, sempre trilhando, por suas essências, semelhantes caminhadas. O fascínio que ela exerce sobre ele através da sedução, a honraria que ela sente pela devoção dele, ainda que exagerada, o fazem girar pelos erros do amor (posse, domínio, desespero, insegurança) e isto só cessará o dia que um deles, ou ambos, tomar atitude completamente nova, quebrando o ciclo vicioso que permitirá o novo.
O ensinamento aqui é a grande chave da peça: “Não importa o que é o amor, mas o que você faz com ele.” de Márcio Barreto.
E o que vale pro amor, vale pra tudo em você, para o mundo, para a vida. “Não importa o que é o mundo, ou sua vida, mas o que você faz com eles”. “Não importa o que você é, mas o que você faz com o que você é.”
Muito se tem feito em teatro no litoral paulista, montagens, pesquisas, festivais. Mas até que ponto esse trabalho todo expressa nossa identidade? Sabemos, ao menos, qual é nossa identidade cultural e por que é tão importante expressá-la? Ou por que é tão enraizada em nós a crença de que o que vem de fora é melhor? Conscientes dessas reflexões procuramos formar um teatro de base que expresse nossa ancestralidade e a misture à nossa contemporaneidade, que reflita o caráter universal de nossa regionalidade. Nosso intuito é formar as bases para uma vanguarda teatral que reflita um mundo infinito, pessoal, que veja o homem não apenas pelo que aparenta, mas que o mostre por dentro de seus pensamentos e emoções, interligado à tecnologia de ponta e continuado a partir de um eu primitivo. Estamos empenhados em um teatro que valorize mais as perguntas do que as respostas. Um teatro que una a filosofia à música, a fotografia à literatura, a emoção do ator ao questionamento da platéia. Um teatro que possibilite o cinema pular das telas e descer ao palco.
Assim, entrelaçando diferentes linguagens artísticas, a montagem possibilita com que os limites entre palco e platéia ganhem novas dimensões, onde o público passa a perceber a peça pelo interior das personagens.
Cada elemento do presente trabalho tem uma ou mais linhas de interpretação.
Na dramaturgia o texto está divido em dois planos distintos: o real e o mítico. O plano real é o texto em si, onde as ações acontecem e as personagens interagem. O plano mítico pode ser observado nos momentos que refletem as alucinações e os sonhos, alguns deles representados nas cenas do balcão de Romeu e Julieta. Eles aludem ao plano mítico da história onde Lilith, após ser expulsa do paraíso, apaixona-se pelo anjo Gabriel e começa a seduzi-lo em sonhos. Como punição, Deus os lança à terra em forma humana. Sem a memória de suas vidas passadas, vagueiam pelos dias atuais até se encontrarem; enquanto Lilith permanece no mais completo desprezo, Gabriel se apaixona imediata e perdidamente. O amor o enlouquece até que leva adiante seu derradeiro plano: seqüestrar o objeto de seu amor. Assim, temos o texto em si e uma espécie de ante-texto. O primeiro liga-nos ao real, ao consciente, e o segundo nos remete ao mítico, ao inconsciente.
Na interpretação procuramos criar uma divisão entre o plano real da peça e seu plano mítico através de linhas diferenciadas de atuação. No plano real procuramos atuar numa linha de naturalidade, com gestos pequenos, próxima à linha de interpretação dos atores no cinema. Através de câmeras ao vivo capturamos as expressões faciais dos atores e as projetamos em uma tela no fundo do palco, possibilitando ao público a análise detalhada das emoções e intenções dos atores. Nas cenas que representam o plano mítico optamos por uma linha exageradamente teatral, com gestos amplos e profundos, carregados de dramaticidade. Acreditamos que o trabalho do ator é expressar através do que ele é o que suas personagens são, como um instrumento que o músico utiliza para expressar sua música. Dessa maneira, o distanciamento ganha nova interpretação, pois o ator não é a personagem que representa, porém deve trazer de sua memória, inteligência e sensibilidade os dados para lhe conferir verdade suficiente para que o público também a sinta.
A fotografia e o vídeo serão utilizados para mostrar as cenas que ocorreram e não constam na peça, bem como o cenário de cenas contextualizadas no presente e os pensamentos, as memórias e as emoções das personagens. Procura-se provocar uma imersão nas imagens que ora pulam da tela ao palco através dos atores, ora levam ao público as imagens mais profundas do “eu” das personagens.
Do circo trazemos o trapézio e o tecido para ilustrar o mundo dos sonhos que remetem à vida passada das personagens.
A música é responsável pela ambiência da peça, ora sendo executada ao vivo por músicos, ora pelas mãos do personagem Gabriel e ora em gravações.
Nossa intenção ao misturar diferentes linguagens artísticas é provocar um fazer teatral sinestésico e reflexivo.
Refletir sobre o amor é uma tarefa tão necessária quanto difícil. Necessária pois nos parece que cada átomo de nossas vidas anseia pelo amor, pelo encontro de almas e corpos, sonhos. Difícil porque amar é algo que nos revira o âmago e mostra-nos quem verdadeiramente somos.
Mas o que é o amor? Um ideal, um instinto, uma ligação, um karma, uma reação química? Companheirismo, desejo, cumplicidade? Solidão?
Não importa o que é o amor, o importante é o que fazemos com ele, quais caminhos seguimos e onde eles nos levam.
Lilith - Cristiane Amici fotos e arte: Márcio Barreto
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Atro Coração - Uma livre adaptação intertextual sobre os limites do amor.
Márcio Barreto São Vicente/SP 1992/2009
CENA I
Um vídeo (tomada 001) é projetado na tela.
Gabriel levanta-se da cama e caminha em direção ao proscênio. Lilith, bêbada, revira-se sentada na cama. No proscênio, Gabriel cambaleia. Som de queixada (músicos). Cessa a projeção do vídeo. Silêncio.
LILITH (gritando): O que há? (levanta-se num sobressalto e chora) Gabriel!
Projeção foto do cativeiro (cenário)
Gabriel ao ser chamado cambaleia ainda mais.
LILITH (soluçando): Eu tinha treze anos... E estava num lugar como esse... Minha amiga estava mal e vomitava muito... Parecia uma grande idiota feliz... ela tentou se levantar e aí...
GABRIEL: E aí?
LILITH: Eu não sei, mas naquele momento eu me sentia irremediavelmente presa... e o pior, ao ver aquilo eu não desejava ir embora... eu queria ficar (desata a rir).
GABRIEL (rindo): Pare de rir, me conte a história.
LILITH (parando de rir e gritando): Estou ficando idiota (levanta-se e caminha para a esquerda)... Minha cabeça vai explodir... Não, minha história... Minha amiga... Ela se levantou e foi... Foi deitar no sofá e caiu... Bateu a cabeça e o sangue sujou o tapete... Ela estava tão feliz que gargalhava sem parar... Antes nem se notava que ela pudesse sequer compreender a felicidade.
GABRIEL: Gostaria de cair como ela diante de você.
LILITH: Vai vomitar?
GABRIEL: Talvez. (despenca no chão)
Blecaute.
CENA II
Os dois conversam no escuro.
GABRIEL: Você acredita que eu seja louco?
LILITH: Louco?
GABRIEL: Seria melhor voltar.
LILITH: Você está muito cansado, seu olhar está perdido, tão distante.
GABRIEL: É possível.
LILITH: Está acontecendo algo que eu não possa saber?
GABRIEL: Sofro.
LILITH: Por quê?
GABRIEL: Amo.
LILITH: E o que você pretende fazer?
GABRIEL: É impossível não acontecer, sem dúvida.
LILITH: Poderia ser mais claro?
GABRIEL: Você conseguiria?
LILITH: Não sei.
GABRIEL: É engraçado. Você arrancou minha pele e agora estou nu até a alma. Quando olho para os seus olhos vejo apenas sonhos e impossibilidades, é tudo tão estranho, só posso me ver dentro de você.
LILITH: Parece que está chovendo, mas aqui é tão difícil escutar.
GABRIEL: Se eu lhe pedisse você me mataria?
LILITH: Só se fosse aos poucos... Para aumentar o prazer da minha tristeza... Você não percebe que lhe matei há muito tempo?
GABRIEL: Pode ser. Talvez estejamos ambos mortos.
LILITH: Talvez. É essa a sensação de crepúsculo no corpo?
GABRIEL: É. Você vê também? Meu coração é como essa sombra, atro, escuro como uma madrugada.
CENA III
Música “Babel”. Vídeo em primeira pessoa de Gabriel dirigindo um carro, passando por ruas e avenidas até avistar Lilith na calçada. Cessa a projeção do vídeo. Um corredor de luz se acende no palco, Lilith caminha em direção à rotunda. Acende-se um foco sobre Gabriel (de costas para o público) que está dentro do carro (apenas as cadeiras).
GABRIEL: Por favor. Você sabe onde fica a rua Guaibe?
LILITH: Sei, fica um pouco longe, mas é fácil de chegar. Na terceira à direita você vira e segue até a quarta rua, depois do segundo semáforo você pega a rua da padaria, tem uma padaria bem na esquina...
GABRIEL: Imagino se fosse difícil... É que eu não sou daqui... Você vai para aquele sentido?
LILITH: Mais ou menos.
GABRIEL: Bom, você poderia me ajudar. Quer uma carona?
Lilith demonstra dúvida, olha para seu relógio e entra no carro. Apaga-se o corredor de luz em Lilith. Inicia-se a projeção de vídeo (sem música, apenas com os sons do carro e da rua) em primeira pessoa do trajeto do carro.
GABRIEL: Você vai parar antes ou depois?
LILITH: Antes.
GABRIEL: Para onde você vai?
LILITH: Em direção a praia... É melhor virar nessa rua... (tosse e sente-se tonta) Eu não sei direito, talvez seja melhor na próxima...
GABRIEL: Acho que você não está se sentindo muito bem. Seu rosto está pálido... Quer um pouco de refrigerante? Vai lhe fazer bem. Eu vou abrir a janela (abre a janela do carro). Está melhorando?
LILITH: Acho que sim, não precisa se incomodar.
GABRIEL: O que lhe aconteceu?
LILITH: Nada, eu estava numa festa com pessoas que falavam e riam alto demais, escutavam música chata, era tudo tão sufocante. Acho que bebi demais. Nossa! Era um saco. Ah! Vire a direita.
GABRIEL: Cicuta e hipocrisia! É bem natural que você esteja assim. Mas nem tudo está perdido. O vento está lhe fazendo bem, seu rosto está mais vivo... É verdade, seus olhos são muito bonitos.
LILITH: Você é muito gentil ou um ótimo mentiroso... Pode virar nessa rua, olha a padaria. O que você costuma fazer em noites como esta?
GABRIEL: Raptar lindas donzelas.
LILITH (sorrindo): E o que você faz com elas?
GABRIEL: Arranco seus corações.
LILITH: Ótimo, já estou farta do meu. Não, não, vire a esquerda. Onde você pretende me levar?
GABRIEL: Talvez a lua?
LILITH: Exatamente para onde eu queria ir.
Blecaute.
CENA IV
A um canto do palco os músicos executam “Chuva Oblíqua”, ao término, um dos músicos produz som de batidas na porta. A luz sobre os músicos se apaga e, simultaneamente, acende-se um foco sobre Gabriel que abre a porta e entra no quarto. Deixa uma bandeja com o café da manhã e arruma alguns objetos. Lilith acorda. Vídeo do cativeiro.
GABRIEL: Dormiu bem? Espero que sim.
LILITH: Minha cabeça está doendo... Onde estamos?
GABRIEL: Perto.
LILITH: Perto da onde? Nossa! Acho que bebi demais. Preciso ir embora.
GABRIEL: Ir embora?
Lilith levanta-se (tonta) e começa a pegar suas coisas.
LILITH: Onde está minha bolsa?
GABRIEL: Você ainda está fraca, descanse mais um pouco, depois eu levo você (conduz Lilith até a cama).
LILITH: Que horas são? Eu preciso ir...
GABRIEL: Você não está bem... Relaxe. Acho que está com febre, ontem quando estávamos no carro você passou muito mal e desmaiou, sua pressão estava baixa... É melhor descansar. Assim que você melhorar vamos embora. Qualquer coisa é só me chamar que estarei ao lado. Aqui tem tudo o que você precisa no momento. Descanse.
Blecaute.
CENA V
Vídeo (tomada 002).
Lilith e Gabriel estão no chão, amarrados um ao outro tentam se desvencilhar de uma corda imaginária.
LILITH: Quem é você que protegido pela escuridão vem descobrir meus segredos?
GABRIEL: Como poderia dizer quem sou, se o que sou poderia me tirar de você?
LILITH: Gabriel? É você, eu sei... Mesmo que eu escutasse uma única vez a sua voz eu jamais a esqueceria. Como chegou até aqui, no meio de tantas pessoas e de muros tão altos? Se alguém lhe vir será a morte.
GABRIEL: Não haveria como não lhe encontrar e não será a morte motivo para me impedir de lhe ver.
LILITH: Você morrerá.
GABRIEL: Temo menos a morte do que a falta do seu amor.
LILITH: Como você descobriu onde estou?
GABRIEL: Um coração apaixonado descobre qualquer coisa.
LILITH: Você me ama, Gabriel? Mas quanto você me ama? Será que me julga tola? A verdade é que estou apaixonada também, mas não quero que me julgue fácil, caso contrário lhe direi que não até que me convença da necessidade brutal do seu amor.
GABRIEL: Lilith, eu esperei por esse...
LILITH: Não, não fale nada. É muito repentino, não deve ser assim, pelo menos nesse momento (desatam os nós e levantam-se do chão). Boa noite! Que você possa escutar o que meu coração ouve.
GABRIEL: Vai me deixar assim?
LILITH: Assim como?
GABRIEL: Sem a esperança de sentir que você me ama?
LILITH: Eu lhe amo muito antes de lhe conhecer, Gabriel.
Correm em direções opostas e de repente param como se uma outra corda imaginária os prendesse. O foco de luz sobre Lilith se apaga, ficando apenas o de Gabriel que tenta se libertar. Apaga-se o foco sobre Gabriel que sai de cena.
CENA VI
Um foco acende-se sobre Lilith que está deitada e acorda de um pesadelo, gritando. Gabriel abre a porta e entra no quarto.
GABRIEL: Está tudo bem?
LILITH: O que está acontecendo? Por que me trouxe aqui? Onde estamos?! Meu Deus, quem é você?
GABRIEL: Calma, você está muito nervosa.
LILITH: Você não pode me prender aqui! Quem é você?
GABRIEL: Não posso responder.
LILITH: Como não pode responder? Deixe-me sair, vamos, saia da frente (avança em direção à porta e Gabriel a impede).
GABRIEL: Acalme-se! Eu não posso deixá-la sair, não me obrigue a usar a força.
LILITH: Quem você pensa que eu sou? A filha de algum milionário, algum político importante? Você se enganou, não há como minha família pagar um resgate.
GABRIEL: Eu sem quem você é. Não se trata de dinheiro.
LILITH: De onde eu lhe conheço? Já nos vimos outras vezes?
GABRIEL: Eu estou apenas obedecendo ordens. Não posso lhe dizer mais nada.
LILITH: Ordens de quem?
GABRIEL: Já disse que não posso falar.
LILITH (irritando-se): De quem? Vamos, diga!
GABRIEL: Entenda uma coisa, você não tem muitas opções. Por hora acalme-se, você não conseguirá arrancar nada de mim.
LILITH: Você tem um cigarro?
Gabriel dá um cigarro a Lilith.
GABRIEL: Digamos que você será minha hóspede por um tempo.
LILITH: Hóspede? Você é louco?! Você me prende em um lugar que nem imagino onde seja e vem com essa conversa de hóspede?! Eu exijo que você diga por que está me prendendo aqui. Por quê? Seu imundo, imbecil (começa a agredi-lo), tire suas mãos de mim!
Gabriel desfere um tapa em Lilith.
GABRIEL: Não, não era assim... Eu... Eu estou apaixonado por você.
LILITH: Ah! É isso?!
Blecaute.
CENA VII
No escuro os músicos produzem sons metálicos. Acende-se um foco sobre Gabriel que anda até o centro do palco, pára e olha a sua volta.
VOZ I (OFF): Acalme-se homem. O que aconteceu? Por que está tão nervoso?
VOZ II (OFF): Uma tragédia! Minha filha foi raptada.
GABRIEL: Não! Ela não foi raptada. Lilith é minha esposa.
VOZ II (OFF): Como?
GABRIEL: Sabíamos que o senhor não permitiria nosso casamento. Por isso casamo-nos às escondidas enquanto o senhor viajava a trabalho. Lilith me ama!
Sons metálicos. Vídeo de câmera de segurança mostrando Lilith esmurrando as paredes. Gabriel sente dores na cabeça e senta-se no chão.
VOZ III (OFF): Prontos? Então vamos começar a gravar. O que torna um casamento feliz?
GABRIEL: Nós acreditamos que são muitos os fatores fundamentais para um bom relacionamento. O amor e o equilíbrio, o respeito, a cumplicidade, a simplicidade.
LILITH (OFF): A verdade é que não sabemos explicar. Nós simplesmente nos damos muito bem.
VOZ III (OFF): E vocês não brigam? Às vezes não pensam em como seriam suas vidas se não estivessem casados?
GABRIEL: Brigamos. É inevitável, mas aprendemos com nossos erros. Além do mais não temos problemas financeiros, respeitamos nossas individualidades e apoiamos uma ao outro.
LILITH (OFF): Temos nossos amigos, nossos empregos, viajamos. Não estamos dizendo que não temos nossas divergências e discussões, mas no geral nos entendemos. Gabriel é muito calmo e amável. Enfim, nós nos completamos.
VOZ III (OFF): Muito bem. Agora quietos, mantenham a expressão. Isso mesmo (som de máquina fotográfica). Obrigado pela entrevista.
Gabriel sente dores na cabeça novamente. Sons metálicos.
VOZ II (OFF): Como? Quer dizer que você a rapta e a obriga casar em uma capela qualquer?
GABRIEL: Para o senhor minha palavra não vale nada. Creio que será melhor escutar sua filha. Peço licença para trazê-la aqui.
VOZ I (OFF): Pois bem, traga-a.
GABRIEL: Aqui está minha esposa. Perguntem-lhe por que se casou comigo.
VOZ II (OFF): Senhora, seu pai acusa Gabriel de tê-la raptada. É verdade?
LILITH (OFF): Que meu pai me perdoe, mas casei-me com Gabriel.
Blecaute.
CENA VIII
Um foco se acende sobre Lilith que está em pé atrás da porta.
LILITH: Escute, você não pode fazer isso. Você disse que me ama e se me ama verdadeiramente, não pode me deixar presa aqui. Este quarto é muito abafado, não tem janelas. Eu preciso ver o céu, respirar ar puro. Aqui eu mal consigo respirar. Estou sofrendo muito, acordei com náusea e dor de cabeça. Seu eu ficar muito tempo aqui, eu morrerei. Quanto tempo você pretende me deixar presa? Já não é o suficiente?
Do outro lado, um foco se acende sobre Gabriel que abre a porta. Som da porta abrindo.
GABRIEL: Depende.
LILITH: Do quê? De um dia eu amar você? Prefiro morrer.
GABRIEL: Procure encarar os fatos de frente, Lilith. Eu lhe amo, não faria nada para lhe magoar, mas não posso deixá-la ir embora. Demorei muito para lhe encontrar.
LILITH: Você é hediondo.
GABRIEL: No momento certo você poderá ir.
LILITH: Aqui é insuportável. Eu preciso respirar. Escute, eu tenho claustrofobia e mesmo que não me ocorra uma crise, meu corpo reage, meus pulmões ficam fracos e adoecem rápido. Preciso de luz, me movimentar com mais liberdade, respirar. Respirar. Eu preciso respirar. Você está me sufocando.
GABRIEL: Você tentará fugir.
LILITH: Não. Eu prometo, não fugirei, não gritarei, não farei nada, pode me amarrar. Esta casa é muito afastada, ninguém nos verá.
GABRIEL: Com certeza. A pessoa mais próxima deve estar a quilômetros daqui. Eu darei tudo o que você precisar e quiser, qualquer coisa, mas ainda é cedo para deixá-la sair.
LILITH: Eu estou apenas pedindo ar puro!
GABRIEL: É muito perigoso. Não sei se posso confiar em você.
LILITH: E eu não sei se posso respirar por mais tempo aqui.
GABRIEL: Se eu a levar terei que amarrar suas mãos.
LILITH: Quando?
GABRIEL: Talvez à noite. Vou pensar.
Blecaute.
CENA IX
O palco escuro, música “Pó de Estrelas”, acende-se um foco sobre os músicos. No centro do palco, Gabriel acende e apaga velas em um movimento contínuo.
GABRIEL (repetidas vezes): Hoje é domingo, pé de cachimbo, cachimbo é de ouro, bate no touro, o touro é valente, bate na gente, a gente é fraco, cai no buraco, o buraco é fundo, acabou-se o mundo.
A cena acaba com a última vela sendo apagada.
CENA X
Lilith está ajoelhada no chão rezando compulsivamente.
LILITH: Meu Deus, não sei mais há quanto tempo estou presa. Sei que meu pulmão está uma merda. Será que vou morrer? Sempre penso o mesmo. Meus nervos estão à flor da pele, mas no fundo as coisas são de outro modo. Seu olhar é perdido e penetrante. Nada de horrível, nada de manias sexuais. Ele respeita meu corpo. No começo tomei todos os cuidados possíveis, ficava atenta a qualquer movimento, procurava sempre encará-lo de frente. Imaginei que fosse fácil fugir, mas todas as vezes que tentei, ele se mostrou de uma agilidade surpreendente. Perdi sua confiança. Ele não me puniu, mas agora não confia mais em mim. Estou a espera dele. Uma coisa estranha, ele me fascina ao mesmo tempo que sinto desprezo e ódio. Todos meus parentes devem estar loucos de preocupação, imaginando que estou morta. Como é possível que ele me ame? Como é possível amar uma pessoa que não se conhece? Procura desesperadamente me agradar, mas ele é louco. Todos os loucos agem assim. (modificando seus gestos e tom de voz) Todos os loucos incendeiam-se. Romãs e liras (música “luz”). Música. De onde vem essa música que não escuto e entretanto me fustiga o ventre? Febre, tenho febre e me perco em fogo. Mas tenho que ter calma mesmo dentro de todo desespero. Vou matá-lo. Eu o seduzirei e depois quebrarei seu pescoço. Ele ficará jogado no chão tentando respirar e parar de gozar. (sons de mulheres rezando). Vamos nos apressar (anda de um lado para outro). Precisamos ir para a cama o mais depressa possível, não quero mais esperar, não sinto mais dor, estou doente e seremos felizes. Num instante levarei você nos braços.
Começa a dançar, sente náuseas e desmaia. Gabriel entra correndo. Cessa a música.
GABRIEL: Linda senhora desfalecida! Quero o resto dos sonhos que lhe cobriram a noite. Levanta que vou lhe mostrar o inferno, enquanto faço da sua saliva um manto para meu corpo sujo.
Blecaute.
CENA XI
Acende-se uma luz sobre Llilth que sobe para o trapézio. Outro foco se acende sobre Gabriel (com asas de anjo) que está embaixo dos tecidos (circo) olhando Lilith subindo ao trapézio. GABRIEL: Só critica o amor desesperado quem nunca se desesperou de amor... Aqui está quem amo e não deveria amar, Lilith... Que me importa se goza sobre mim, e sorve aquilo que poderia ser meu filho? O que importa é que goza comigo e aqueles que não se tornaram meus filhos vivem dentro dela, ainda que por alguns instantes em ambos os lábios... LILITH (no trapézio): Ai de mim! GABRILEL: Lamenta! Mas se quer o que também eu quero não deveríamos estar assim... LILITH: Gabriel, Gabriel! Ah! Por que você, Gabriel? Não poderia ser outro e deixar apossá-lo até que viesse o esquecimento e restasse apenas o gozo? GABRIEL (à parte, sussurrando): Continuo ouvindo-a mais um pouco, ou lhe respondo? O homem padece da aquilo que lhe acomoda...
LILITH: Anda Gabriel! Porque nem eu nem você queremos saber quem somos, mas o que podemos fazer com nossas mãos, pés, braços. Suas asas só têm serventia se voarem até mim, agora... GABRIEL (dirigindo-se à Lilith): Sim, aceito sua verdade como ela é. E só poderia ser assim (sobe pelos tecidos, lentamente). LILITH: Quem é você, que encoberto pela noite, procura descobrir meus segredos? GABRIEL: Aquele que deveria convencer, mas foi por você convencido.
LILITH: Meus ouvidos ainda não beberam cem palavras sequer de sua boca e já reconheço o tom do meu anjo-não-caído... GABRIEL: Estou caído e você não vê? Olha o quanto me expus! LILITH: Não lhe vejo, pois meus olhos não alcançam sua distância, e mesmo perto, não lhe fitariam através de sua luz. Perdeu o medo da punição? Se alguém lhe surpreender aqui será o fim. GRABRIEL: Ai! Há mais perigo em seus olhos do que em toda loucura e solidão. LILITH: Por nada neste mundo desejaria a sua solidão. GRABRIEL: Preferiria nunca ter lhe visto a perdê-la. LILITH: Não chame o que sinto de pureza, caso contrário não sorveria, faminta, o que vem de você... GABRIEL: Os que não podem amar também sentem amor... LILITH: Estremece dentro de mim, ao lhe ouvir, há algo que acelera e palpita e chego a agoniar. Você me ama? GRABIEL: Juro pela luz do outro lado desta lua, que clareia de prata as minhas asas. LILITH: Jura pela lua inconstante. Mas se quer saciar sua curiosidade, eu lhe prefiro alado e puro, condição que me embebeda da mesma inconstância lunar: desejar e depois não e novamente desejar a quem tenho ao lado e ao mesmo tempo, distante...
GABRIEL: Nunca me amará pura e constantemente?... LILITH: Prometo! Vai agora junto com a noite, sabendo que é meu eleito (faz menção de descer do trapézio). GRABRIEL: Vai deixar-me sair assim insatisfeito?
LILITH: Você ficou satisfeito antes? Pois então voltará a acordar lembrando do meu cheiro e coberto pelos restos do nosso amor.
GABRIEL: Vem comigo! LILITH: Não posso. O que tinha já lhe dei. Alguém se aproxima. Vai embora que logo estarei em seus sonhos (começa a descer). GABRIEL: Fosse eu apenas sono e dormisse pra sempre desse jeito!
Gabriel desce dos tecidos.
Blecaute.
CENA XII No escuro os dois atores correm pelo palco afoitamente, param e começam a rir alto. Correm novamente, som de queda. As luzes se acendem, Gabriel está caído no chão, Lilith pisa em seu pescoço, levanta-o pelos cabelos, esfrega seu rosto em suas coxas e o repeli. Apaga-se a luz. Sons de respiração ofegante (intenção de orgasmo feminino). Acende-se um foco sobre Lilith que está deitada na cama tendo uma crise de falta de ar. Gabriel entra no quarto.
GABRIEL: Se você julga que me comovo com esse truque de ficar deitada está esganada. LILITH: Você é um idiota! Não passa de um verme que rasteja na própria loucura. Não se aproxime de mim. GABRIEL: Ótimo. Eu posso esquecê-la por completo. Que tal apodrecer aqui, sozinha? LILITH: Eu sinto uma enorme vontade de lhe matar, seu eu pudesse faria agora. Não se preocupe, eu jamais daria queixa de você. A cadeia é pouco para o que você merece. GABRIEL (gentilmente): Cale-se! Sou eu quem manda. Posso fazer o que eu desejar, não se esqueça.
Lilith levanta-se e se ajoelha diante Gabriel.
LILITH: Estou muito doente. Tenho pneumonia ou algo pior. Você precisa chamar um médico. GABRIEL: Deite-se. Você sabe muito bem que não está doente. Se tivesse com pneumonia você não conseguiria nem se levantar. LILITH: Mas meu pulmão dói muito, não consigo respirar direito, a noite não durmo e mal consigo comer.Veja como estou quente. Esse quarto é muito abafado. GABRIEL: Tem ar de sobra. LILITH: Se eu não estivesse doente, você acha que eu me sujeitaria a pedir alguma coisa a você, depois de tudo? Eu estou doente de verdade. GABRIEL: É só uma gripe, passa logo. LILITH: Se você não chamar um médico eu morrerei. Você vai me matar. Estou com muito frio. Por favor, estou com medo. GABRIEL: Você está indisposta, é apenas isso. Acalme-se, vou trazer algo para lhe reanimar e num instante você ficará boa.
Gabriel pega uma bebida e serve Lilith.
LILITH: O que é isso? GABRIEL: Beba, você vai gostar. Mas não beba depressa porque é forte. Sem dúvida você imagina que eu já tenha bebido hoje. LILITH: Não. Por quê? Você bebe sempre? GABRIEL: Não posso lhe explicar tudo, mas me comportei como um covarde com todos aqueles que amei. LILITH: Isso não importa, não nesse momento. Você está me assassinando e finge que não acredita. Eu sei, morrerei em condições desonrosas. Tenho-lhe tanto horror que chego a confundir com paixão. E isso me enoja a tal ponto que tenho medo (bebe cada vez mais). Estou pensando: se eu continuar bebendo, você me dirá “deite-se” e eu deitarei, “lamba o chão” e eu lamberei... Eu ia ter uma bela morte... Não há nada que me seja mais odioso, fazer prazerosamente tudo que você gostaria que eu fizesse. GABRIEL: Você sabe cantar? LILITH: Por quê? GABRIEL: Queria que cantasse para mim... Eu a invejo por beber nessa situação. Beba mais um pouco. Por que você não canta? LILITH: Não sei cantar. GABRIEL: Dançar, você dançaria para mim? LILITH: Depende. Se eu conseguir me levantar. GABRIEL: Eu vou tocar a música que você gosta. (Toca Canção do mar na escaleta).
Lilith levanta-se, toma mais uns goles da bebida, inicia um balé desajeitado. Pára, começa a chorar e volta-se para Gabriel que a abraça e a leva de volta para a cama.
GABRIEL: Sente-se aqui. Não fique brava. Talvez você não entenda, mas preciso que você fique louca. Preciso disso para não morrer antes de você. LILITH: Você morrerá? Está dizendo a verdade? GABRIEL: Não quero morrer... Quero viver com você, tenho medo da morte... Penso nisso vazio... Tenho um medo terrível... Você... E depois eu... Dois mortos... E o quarto vazio. LILITH: Não, é inútil. Fica ao meu lado, mais perto, me abraça...
GABRIEL: Não.
Um vídeo (tomada 001) é projetado na tela. Gabriel levanta-se da cama e caminha em direção ao proscênio. Lilith, bêbada, revira-se sentada na cama. No proscênio, Gabriel cambaleia. Som de queixada (músicos). Cessa a projeção do vídeo. Silêncio.
LILITH (gritando): O que há? (levanta-se num sobressalto e chora) Gabriel!
Gabriel ao ser chamado cambaleia ainda mais.
LILITH (soluçando): Eu tinha treze anos... E estava num lugar como esse... Minha amiga estava mal e vomitava muito... Parecia uma grande idiota feliz... Ela tentou se levantar e aí...
GABRIEL: E aí?
Blecaute.
CENA XIII
Lilith está sentada no chão envolvida por um lençol branco. Projeção simultânea de fotos das cenas que não ocorreram na peça. Pausa na foto de Gabriel entregando flores à Lilith.
LILITH: Quem será o filho da puta que pagará as flores e o enterro se eu morrer de amores? Morrerei sem esperança nos braços do inimigo que me amará e em cólera queimará meu corpo e o jogará ao vento, beijando meus lábios de lua.
Sons de vento e relógios. A luz se apaga em resistência.
CENA XIV
Gabriel está em pé, ao lado de um lençol branco estendido no chão.
GABRIEL: Eu sei que você está dormindo e não acordará, passei horas inteiras olhando seus olhos fechados. Você não acordará, mesmo que o impossível fosse o último cigarro que fumássemos ainda insones. Ilhas de insônia, partes imaginárias do que não conheço, exílios da minha loucura, mundos infinitos, pequenos. Não, você não está dormindo, nem sonhando, nem fingindo. Você não está sonhando e eu não posso mais sonhar. Meu corpo ainda clama o seu, minha boca se contorce. Imagino coisas, coisas que você talvez pudesse gostar. Mas agora a tarde cai e sua morte me apavora, me faz tremer. Perto de mim a frieza dos seus lábios me traz um sorriso tão triste e horrendo que me condena a uma solidão que recusarei, que não terei estômago para suportar. E mesmo assim eu repetiria o mesmo convite: Quer uma carona?
Gabriel pega um revólver e o coloca na boca. Apaga-se a luz. Som de disparo.
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Referências
“O colecionador” – John Fowles
“A Bela e a Fera” - Marie le Prince de Beaumont
“Romeu e Julieta” - William Shakespeare
“Cenas de um casamento” – Ingmar Bergman
“A lua na sargeta” – David Goodis
“Segunda Cena do Balcão inspirada em Romeu e Julieta” – Christiane Amici
Percutindo Mundos - Música Contemporânea Caiçara...
Experimentando melodias percussivas, procurando o minimalismo exato da expressão, o tribalismo pulsante de velhos tambores, calimbas e paus de chuva, mudamos o mundo num movimento de sonho, rápido como o pensamento, pois enquanto o universo se expande e o mundo se comprime em escalas dissonantes, brindamos ao simples e ao inefável...